A maior exposição no Brasil sobre o artista mostra como ele revolucionou a arte – e ajudou a criar nosso modo de vida.

Auto-retrato, obra de 1986, integrante da mostra. Andy Warhol foi capaz de dar à arte o status de produto. E vice-versa.

Se há um hábito capaz de unir os diferentes estilos de vida do homem contemporâneo, é o consumo. Talvez essa não seja uma ideia revolucionária hoje. Mas nos anos 60, quando Andy Warhol apareceu no campo das artes reproduzindo em suas pinturas latas de sopa iguais às vendidas nos supermercados, era praticamente impensável elevar um mero produto comercial a símbolo de um valor universal: o poder de compra. Warhol foi o primeiro artista a detectar – e de certa forma orientar – a mudança de valores rumo à sociedade do consumo e do espetáculo. Esse caminho está bem claro na exposição Mr. America, com início marcado para o dia 20 na Estação Pinacoteca em São Paulo. De tanto fabricar, manipular, distorcer e transformar ícones, Warhol tornou-se ele próprio um ícone. Rompeu a fronteira da arte com a vida cotidiana e mudou ambas.

Mr. America é a maior exposição de Andy Warhol (1928-1987) já apresentada no Brasil. Segundo o curador Philip Larratt-Smith, as 169 obras espalhadas pela Estação Pinacoteca, na região central de São Paulo, representam praticamente todos os aspectos do trabalho do artista. “É como uma minirretrospectiva”, diz. A diversidade pulsante de Warhol pode ser vista em 26 pinturas, 58 gravuras, 39 trabalhos fotográficos, duas instalações e 44 filmes. Organizada em colaboração com o The Andy Warhol Museum, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, a exposição já foi exibida nas capitais da Colômbia e da Argentina.

Nem sempre é necessário conhecer a vida de um artista para apreciar sua obra. No caso de Andy Warhol, isso é fundamental. Ele vivia sua arte. Não apenas no sentido da dedicação (algo comum a quase todo grande artista), mas na percepção de que seu comportamento e sua imagem eram eles próprios manifestações artísticas. Nesse sentido, também, Warhol antecipou características fundamentais da vida moderna.

Desde o começo da carreira, Warhol entendeu o mercado. Suas experiências com o comércio começaram aos 10 anos, quando acompanhava os dois irmãos mais velhos para vender, de porta em porta, legumes que seus pais cultivavam no quintal de casa em Pittsburgh, sua cidade natal. O pequeno Andrew já exibia talento artístico e levava consigo desenhos de estrelas e borboletas para vender aos clientes dos irmãos. Duas décadas depois, no fim dos anos 50, ele era um dos mais bem pagos ilustradores de revistas e de publicidade de Nova York, onde morava desde que se formou em artes comerciais.

A transição para a prática artística ocorreu naturalmente. Desde os anos 50, artistas ingleses como Richard Hamilton usavam a cultura americana como tema – em geral em tom de crítica ou paródia – em suas obras. Era o início da arte pop. Nos anos 60, ela chegaria com vigor aos Estados Unidos. Roy Lichtenstein se apropriou da linguagem dos gibis em suas pinturas. Jasper Johns levou às telas símbolos patrióticos, como a bandeira e o mapa americanos. Warhol seguiu o movimento, com a técnica de serigrafia que usava no mundo editorial e publicitário. Em sua primeira exposição individual, em 1962, retratou as latas de sopa Campbell’s. Ele havia passado a juventude almoçando o conteúdo dessas latas. Ali, mostrou um dos elementos que guiariam todo o seu trabalho: o uso (e abuso) da repetição. Ele expôs 32 desenhos das latas, cada uma mostrando um sabor diferente no rótulo. Para Warhol, a produção em série dos produtos industrializados era o que definia a sociedade como um conjunto uniforme. Cada pessoa se distinguia das outras a partir de suas escolhas na hora da compra. Assim, o desejo por um produto – no caso, a sopa – levava a um padrão de comportamento. E a preferência por um sabor diferenciava um indivíduo do outro. O impacto de sua obra lhe conferiu a alcunha de “o papa do pop”. A força de sua arte repousa em um paradoxo: ela faz uma crítica demolidora da sociedade de consumo e ao mesmo tempo a glorifica.

Ainda em 1962, na série em que reproduzia centenas de notas de dólar, Warhol rompeu com a tradição artística ao assumir de maneira provocadora sua paixão pelo dinheiro. Mestres do expressionismo abstrato como Jackson Pollock exibiam uma atititude de superioridade e esnobavam a riqueza. Warhol era diferente. Ele não tinha vergonha de vincular seus interesses financeiros ao trabalho. Queria realizar a cultura pop tanto em sua obra como na vida. Buscava obter lucro e realizar assim o sonho americano. Uma de suas frases famosas é: “Boa arte é bom negócio” (Good art is good business). O mercado de arte atual é muito mais próximo dessa visão do que a de Pollock. O interesse econômico dos artistas nunca mais foi dissociado do mundo das artes.

 

O mundo de Warhol
Os grandes temas e conceitos do artista que fazem parte da exposição Mr. America

A fama também estava entre suas prioridades. Em 1962, ele apresentou seus famosos retratos de Marilyn, que acabara de morrer. Era o início de sua obsessão pela cultura da celebridade. A herança da tradição cristã-bizantina – Warhol era filho de imigrantes do que hoje é a Eslováquia – deu força a suas Marilyns e o ajudou em sua consagração. Warhol conhecia a diferença entre uma imagem e um ícone – como aqueles que ele contemplava com devoção em suas inúmeras visitas à igreja. A imagem lembra a ausência daquilo que retrata (como uma foto de um amigo distante), enquanto o ícone bizantino é, a um só tempo, representação e presença (a estátua de um santo é, para o fiel, santa). Ao encher de cores o rosto de Marilyn, Warhol traz para a obra não só uma lembrança, mas a mágica epifania da atriz, como se ela estivesse na companhia do espectador. Isso fez de Warhol um cocriador do ícone Marilyn. E, junto com Marilyn, ele também ganhou status de personalidade. Sua fama estava garantida.

A partir daí, passou a viver a cultura pop até seus limites: frequentava a turbulenta noite nova-iorquina, virou o empresário da banda Velvet Underground, lançou livros e filmes, apresentou programas de televisão, criou uma revista de entrevistas, além de ter trabalhado como garoto-propaganda de diferentes produtos. Factory, seu estúdio, é um emblema de suas crenças. De portas sempre abertas, o local recebia visitas de assistentes, marginais da noite, como drag queens e beatniks, ao mesmo tempo que concentrava a elite artística da cidade, como o escritor Truman Capote e os músicos Bob Dylan e Mick Jagger. Na Factory, Warhol aboliu todas as hierarquias. A criatividade era exercida de modo democrático. No fim, Warhol assinava todas as pinturas e os filmes criados coletivamente. A Factory fechou em 1968, quando uma frequentadora atirou em Warhol e quase o matou. Ele experimentava o lado amargo de seu sonho de glória e fama.

Sua vida foi um laboratório do mundo atual. A democracia vivida em sua Factory, a autoria como um conceito frágil, a repetição e a cultura das celebridades, tudo isso hoje faz parte do cotidiano. Visitar a exposição Mr. America é deparar com a imagem de nossa época, em suas mais variadas repetições.

 

Ele estava certo
Warhol captou a essência dos dias atuais

REMIX
A ideia de usar um produto já célebre e lhe dar nova embalagem está no cerne da obra de Andy Warhol. A cultura de hoje está tomada por filmes, músicas, programas de televisão e ideias reciclados

MULTIMÍDIA
Warhol extrapolou os limites das diferentes expressões artísticas. Atuou como pintor, escultor, cineasta, produtor musical, escritor e apresentador de TV

CELEBRIDADES
Sua famosa frase “No futuro, todos serão famosos por 15 minutos” se concretizou. Além disso, Warhol negou o prestígio do artista recluso e se tornou também uma celebridade, como tantos artistas de hoje

CULTURA YOUTUBE
Os filmes produzidos na Factory usavam aparelhagem simples, e não atores. O ambiente era de democracia criativa, assim como no site de vídeos YouTube

MANIPULAÇÃO DA IMAGEM
Warhol pode ser considerado o precursor do Photoshop. Em um programa de TV, usou o computador Amiga para pintar um retrato da cantora Debbie Harry

 

Serviço

MR. AMERICA
Exposição de Andy Warhol
Estação Pinacoteca
Largo General Osório, 66, Luz, São Paulo, SP
Tel. (11) 3335-4990
Abertura no dia 20 de março, às 11 horas. Até o dia 23 de maio.
De terça-feira a domingo, das 10 horas às 17h30

Fonte: Época – Mente Aberta


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